O que você precisa saber
A gestora capixaba comprou mais de 15% das ações da CVC Corp entre 2025 e 2026. A operação, batizada de "Master Capixaba" pelo mercado, não foi paga só com recursos próprios: a Apex canalizou dinheiro de um ecossistema de investimentos de R$ 17,5 bilhões, que reúne ativos de clientes, fortunas sob gestão (wealth management) e fundos de terceiros.
Para atrair investidores para a compra das ações da CVC, a Apex ofereceu uma garantia duvidosa. Ela prometeu ao investidor que ele ficaria com a valorização das ações caso elas subissem, mas recebia ao menos 100% do CDI se caíssem ou ficassem estagnadas — uma promessa de risco zero embora se tratasse de um ativo de renda variável, negociado na Bolsa.
Segundo agentes do mercado, as suspeitas se assemelham às do Banco Master. A instituição foi liquidada pelo Banco Central em 2025 depois de uma crise generalizada de liquidez, em um dos maiores escândalos do sistema financeiro nacional. No caso da Apex, as ações da CVC caíram mais de 30% desde o início de 2026, tornando inviável cumprir a promessa, obrigando a gestora a tirar dinheiro do próprio caixa para cobrir a diferença — abrindo um rombo nos cofres da gestora.
A dívida líquida da Apex saltou de R$ 413 milhões para R$ 975 milhões apenas entre janeiro de 2025 e junho de 2026. A dívida bruta total chega a R$ 985,6 milhões. Cerca de R$ 309,8 milhões dessa dívida se deve justamente ao mecanismo pelo qual a Apex prometia retorno (cashback) de até 125% do CDI a 1.600 contratos ou aplicações de clientes.
Um dos credores prejudicados pela crise da Apex é o Grupo Gazin. O conglomerado paranaense tinha um acordo para receber R$ 79 milhões que aplicou em títulos estruturados pela gestora. A primeira das dez parcelas de R$ 7,9 milhões venceu em julho de 2026, no mesmo período em que a crise da Apex se agravava, e não foi paga.
A investigação
Desconfiados dos aportes na CVC, os próprios sócios da Apex montaram um grupo para auditar as contas da gestora. A apuração, concluída na primeira semana de agosto, apontou "inconsistências financeiras", levando ao afastamento dos executivos e ao anúncio da crise ao mercado. Os sócios anunciaram, na sequência, a contratação de uma auditoria externa independente para aprofundar o levantamento
O fundador da Apex, Fernando Cinelli, e o diretor financeiro Eduardo Siqueira foram afastados sob acusação de "gestão temerária" e "má-fé". Segundo os sócios, a dupla não dava transparência aos balanços internos, escondendo a dimensão da dívida. Há também suspeita de que os R$ 309,8 milhões em obrigações de cashback tenham sido estruturados sem lastro para bancar a compra de ações da CVC.

